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A onda conservadora na América Latina

Por Luan Ribeiro*

Traçamos um breve panorama da tomada de poder pela direita e o novo discurso raivoso que elegeu presidentes conservadores nos últimos anos

O ano de 2019 será inaugurado com a posse de Jair Bolsonaro (PSL) no governo brasileiro. Assim, ele se junta a Maurício Macri (Argentina), Sebástian Piñera (Chile), Vizcarra (Peru), Iván Duque (Colômbia) e Benítez (Paraguai) no grupo de presidentes abertamente declarados como “de direita”. Na América Central, alguns casos se destacam, como o de Jimmy Moreno, uma mistura de Bolsonaro com Tiririca, que levou uma eleição presidencial apoiado por antigos grupos armados anticomunistas. Estes fenômenos não são coincidência, ou fruto de intervenção de algum Deus reacionário, tão pouco estão desconectados de uma onda conservadora mundial. Entretanto, a América Latina tem uma construção histórica e política própria, que deve ser tomada como ponto de análise.

Se o trabalhador na América Latina desde a década de 2000 pôde ter políticas progressistas de redistribuição de renda e inclusão social (ainda que com seus visíveis limites), o cenário atual da virada para os anos 2020 parece estar destinado a marchar para trás. Uma onda conservadora pode ter tomado a região e, como uma tempestade, promete varrer as garantias estabelecidas nos últimos mandatos.

As últimas eleições latino-americanas foram marcadas por medos e revanches, e isto claramente aconteceu no Brasil. A crise econômica mundial, que certamente afetou o continente, deixou consequências pesadas no bolso do trabalhador, e o povo que conseguiu crescer como classe média passou a consumir menos. Só que depois de anos de consumo alto, deixar de comprar o que se conseguia é um problema mortal. Se a nova esquerda que alcançou o poder nos últimos 20 anos já foi uma alternativa às velhas elites da velha política,então parece pro eleitorado que não há saída dentro da política tradicional.

A partir deste cenário, gente velha prometendo o novo surge como o messias para guiar seu povo, com um discurso de violência”salvadora” contra falsos inimigos internos. Estes inimigos (a esquerda, as feministas, os LGBTs, o movimento negro, imigrantes) passam a carregar a culpa pela crise econômica do capitalismo, como se seus direitos de sobrevivência fossem privilégios. Esta perigosa armadilha em que o povo foi colocado pode trazer com ela não só o conservadorismo, mas o reacionarismo: a vontade de voltar a tempos que surpreendentemente são vistos como bons por alguns que constroem esta onda de direita. O atual presidente paraguaio, por exemplo, afirma que a ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989) “fez muito pelo país, e lançou importantes bases para o Paraguai de hoje”.

Apesar da truculência dos discursos dos novos chefes-de-Estado, o mercado parece ter reagido bem à mudança. Ora, mas temos de pensar: quem é esse tal de Mercado e quem o chamou para nossa festa latina? Parece que agradam aos investidores do mercado financeiro governos que pratiquem medidas antipopulares, e que com repressão, não permitam a liberdade de criticar os abusos econômicos, humanitários e políticos de seus mandatos. Para os investidores, dar essa liberdade seria, talvez, dar chance para que uma oposição ganhe terreno e reassuma os rumos que caminhavam na década passada.

Cabe relembrar, inclusive, que foram derrubados por golpes parlamentares ou por eleições fraudulentas os políticos que não agradavam à farra do mercado financeiro, que não correspondiam ao aprofundamento do neoliberalismo endoidado que guia as novas direitas hoje. Fernando Lugo, no Paraguai, em 2012 e Dilma Rousseff, no Brasil, em 2016, são exemplos deste fato. O sociólogo Boaventura de Sousa Santos afirmou em entrevista para o vlog da revista Le Monde Diplomatique que os golpes parlamentares são a nova cara da intervenção política global, já que não são mais tramados pela CIA, e sim por centros intelectuais e conglomerados da iniciativa privada. Em certo ponto, acerta Boaventura, porém descarta um raciocínio essencial: nos países capitalistas, há alguma separação entre o que é o Estado e o que é o capital (especialmente em se tratando de Estados Unidos ou das potências capitalistas europeias)?

Fato é: o aprofundamento da crise econômica e da violência, dados – entre outros – pela falência dos sistemas de segurança pública e de participação política cidadã, somados ao apoio de grupos internacionais (como a British Analytica) na política latino-americana, nos coloca em um cenário de desapego com a democracia. Num continente recém saído de ditaduras que mataram, prenderam e torturaram milhares de pessoas, a direita que fazia o jogo fisiológico assume uma ideologia que beira o fascismo e desloca o debate político para as trevas.

Parece que a frágil e recente democracia da América do Sul não soube se defender dos antidemocratas. Em 2019, Bolívia, Argentina e Uruguai abrirão seus processos eleitorais. Saberemos, talvez, em poucos meses, se nosso povo tem capacidade de se manter de pé ou se sucumbiremos ao deus-nos-acuda da extrema-direita.

* Luan Ribeiro é professor de História, pesquisador-colaborador na UFRJ e compõe a direção do Sindicato dos Professores do Rio de Janeiro (SinproRio)

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