Editorial

O bolsonarismo e a resistência

A consistente vitória eleitoral de Bolsonaro encerra de vez o ciclo de eleições de candidatos petistas e é uma expressão do esgotamento do modelo político e econômico até então em vigor. As manifestações de junho de 2013 haviam sido um sintoma desse esgotamento, de que a estagnação de melhoria das condições de vida dos mais pobres, insatisfação com serviços públicos, gastos exorbitantes com megaeventos como a Copa do Mundo e Olimpíadas, e a perda de status relativo da classe média era um terreno fértil para o nascimento de uma nova quadra na história brasileira. A eleição apertada de Dilma em 2014, assim como a perda de consistente base social ao insistir na política de austeridade fiscal, que aprofundou o cenário de crise econômica e social, e levou a manifestações turbinadas de 2015 pelo seu impedimento. O golpe parlamentar de 2016, só foi possível em virtude da perda de apoio social da presidenta.

Os dois anos de governo Temer foram de fortes ataques aos direitos dos trabalhadores e dos mais pobres, tendo seu ápice na aprovação da Reforma Trabalhista que na prática, rasgou a CLT e as leis de proteção ao trabalho.  A resistência popular à reforma da previdência e a proximidade do ano eleitoral, fizeram com que deputados não votassem a reforma que é a menina dos olhos do mercado, a que acaba com o direito dos brasileiros e brasileiras de se aposentar com um mínimo de dignidade.

Na eleição o povo brasileiro praticamente passou um cheque em branco para Jair Bolsonaro, que pouco apresentou projetos para o país e utilizava-se largamente de um sistema profissional de disseminação de notícias falsas e apoiado numa falsa agenda moral. O seu discurso mudancista contra tudo que está aí e fortemente crítico ao petismo e à esquerda; esquerda esta que, para uma parte da população é vista como responsável pela melhora da sua condição de vida, e por uma grande parte são os responsáveis pelo desemprego, crise econômica e violência crescentes. Apesar de boa parte das ações de composição de seu governo indicarem que será uma espécie de continuidade aprofundada do governo Temer, o povo nutre grandes expectativas de melhora. É uma baita contradição o governo de Michel Temer, que termina com 7% de aprovação e o presidente eleito, que é o seu mais legítimo sucessor, ter 75% de aprovação. Vai ser necessário que o povo faça sua experiência histórica com Bolsonaro e também será necessário que nós, que seremos resistência contra suas medidas, saibamos dialogar com setores importantes da classe trabalhadora que nutrem esperanças de dias melhores.

Contra o conservadorismo e o ultraliberalismo será necessária a formação de uma frente ampla, com unidade na ação e na luta. Duas coisas já foram colocadas como ordem do dia para o governo: a reforma da previdência, para agradar o mercado, e o projeto da Escola Sem Partido, para agradar o conservadorismo e o fundamentalismo religioso. O fascismo não se instalará no Brasil no dia 1º de janeiro, mas é importante ter ciência de que cada avanço do fascismo mina a nossa capacidade de resistir no futuro, então seja nos costumes, seja na militarização da vida, na economia ou em qualquer segmento, devemos travar o mais duro combate. Vai ter resistência e que estejamos a altura de nosso desafio histórico.

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