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Resenha | Mulheres, Raça e Classe – Angela Davis

*Por Camila Pizzolotto  | camilapizzolotto@vozdaresistencia.com.br

Já na introdução do livro recém lançado do historiador David Roedinger, intitulado Class, Race, and Marxism, recorta  o debate fundamental que vai permear todo o texto, levantado a partir de uma fala de David Harvey. Para o geógrafo, os recentes protestos contra a violência policial – e em especial, contra o racismo presente nas intituições e nas ações destes policiais – em Ferguson, Estados Unidos, não estariam travando uma luta anti-capitalista.

Segundo Roedinger, Harvey analisa de maneira separada as lutas contra opressão de raça, gênero ou sexualidade e as lutas contra o capital. Ainda para ele, “aqui Harvey desenha uma distinção, encontrada em seu [livro] Seventeen Contradictions and the End of Capitalism e no trabalho de outros, entre o que em uma mão estaria o “capitalismo”, que ele admite estar permeado por opressões de raça e classe, e na outra mão o “capital”, cuja lógica pode ser examinada sem a necessidade de examinar estas categorias”. É indo no caminho oposto de Harvey, tentando analisar estes fenômenos de maneira entrecruzada e dialética que Angela Davis constrói Mulheres, Raça e Classe.

Partindo da especificidade das mulheres negras escravizadas e suas famílias nos Estados Unidos, Davis afirma que não há como entender esta condição sem considerar o papel destas mulheres como trabalhadoras. Enquanto o movimento pelo direito das mulheres reivindicava a entrada dessas mulheres, brancas, no mercado de trabalho, as negras sempre trabalharam. O peso que o trabalho ocupa na vida dessas mulheres, ainda hoje, foi tecido já nos primeiros anos de escravidão (p.17).

Na condição de trabalhadoras escravizadas, essas mulheres eram exploradas da mesma maneira que seus maridos, irmãos e pais, com o agravante de que, quando eram punidas, além do açoite e das mutilações contra os homens, elas também sofriam com estupros. Segundo Davis, elas eram bem mais lucrativas que os homens, por ter um custo de exploração menor (p.23).

Aqui a autora começa a desenvolver um argumento que permeia todo o trabalho: as opressões de gênero e raça estão profundamente conectadas com a construção do capitalismo americano e suas especificidades. Além disso, foi na resistência à essas opressões que o movimento de trabalhadoras se fez assim como movimentos de mulheres negras. Traçando um histórico do movimento abolicionista nos Estados Unido pré e pós Guerra de Secessão, Davis demonstra como o fazer-se do movimento pelo direitos das mulheres está profundamente conectado com a campanha anti-escravagista. Entendendo que, de alguma maneira as opressões de gênero e de raça estavam ligadas na prática, as mulheres brancas tiveram um importante papel na luta contra a instituição da escravidão. Após a Revolução Industrial, a “ideologia da feminilidade” se popularizou, resguardando assim, somente a esfera privada para as mulheres brancas. Agora donas de casa, mães, irmãs, essas mulheres(de classe média ou jovens operárias) frequentemente comparavam sua situação com a àquela vivida pelos escravizados (p.46).

Segundo Davis, “trabalhando no movimento abolicionista, as mulheres brancas tomaram conhecimento da opressão humana e, nesse processo, também aprenderam importantes lições sobre sua própria sujeição” (p.51). A autora, entretanto, evidencia aspectos importantes dessas lutas: o movimento pelo direito das mulheres era de maioria branca e burguesa. Isso, obviamentem, teve implicações práticas na fundação e na recepção desses movimentos pelas mulheres negras e/ou operárias.

Neste primeiro momento do movimento de mulheres, ligado às campanhas anti-escravagistas, as lideranças dedicaram pouco ou nenhum tempo para a conscientização anti-racista. Por isso mesmo, as mulheres negras sofreram resistências por parte das muleheres brancas quando tentaram ocupar espaços e ter voz na militância sufragista. Os atos ou declarações racistas eram vistos apenas como desvios morais ou de caráter, de modo que a maioria das pessoas brancas abolicionistas defendiam os jovens capitalistas industriais do Norte. Ou seja, descolavam a exploração do corpo negro e a opressão feminina do cenário econômico, que explorava também a mão de obra branca da classe trabalhadora. Segundo Angela Davis “mesmo os abolicionistas mais radicais não reconheciam que a mão de obra branca do norte, não obstante sua condição de operárias ou operários, ‘livres’, não estava em situação muito diferente da mão de obra escrava no Sul: ambas eram vítimas da exploração econômica” (p.74).

No momento pós-guerra, o movimento pelo voto da população negra, neste caso especificamente dos homens negros, afora uma luta contra a opressão econômica, era também uma forma de lutar pela sobrevivência. Além dos sanguinários ataques de gangues, esta parcela da população se via em uma situação muito próxima daquela da escravidão. As mulheres negras ainda faziam boa parte dos serviçoes domésticos e os proprietários de terra começaram a contratar pessoas em situação de encarceramento, o que fazia a população negra ser vítima de prisão por pretextos ridiculamente pequenos – o que, inevitavelmente, nos faz voltar ao presente, resgatando casos como o de Ferguson, onde em 2014 um policial branco matou com doze tiros o jovem Michael Brown, sob alegação de que ele havia se comportado de maneira “agressiva” e teria tentado roubar cigarrilhas em uma loja de conveniência.

Essa população encarcerada no momento posterior à Guerra servia de mão-de-obra ou se via obrigada a aceitar condições de trabalho análogas à escravidão. Segundo Davis, era essa lógica por trás dos linchamentos e a suspensão do direito de voto no Sul, mesmo depois de sua conquista.

A omissão das sufragistas brancas em relação aos linchamentos e as questões raciais eram apenas retratos de um momento que culminou na adoção da ideia de supremacia branca por essas mulheres. Não foi à toa: é exatamente neste período, nas décadas finais do século XIX, que ideias eugenistas começaram a ganhar adeptos, com justificativas científicas, ideológicas e institucionais por trás do racismo crescente (p.123). É aqui que, de novo, Angela Davis chama atenção para um aspecto crucial e fundante do capitalismo americano e, além disso, de sua expansão imperialista. Baseado em ideais da supremacia branca, “as mesmas forças que tentavam subjugar as populações destes países eram responsáveis pela deterioração da situação da população negra e de toda classe trabalhadora nos EUA” (p.123).

Neste mesmo argumento proveniente da supremacia branca, o mito do homem negro estuprador e da mulher negra promíscua colaboram para a justificativa de ações violentas tanto individualmente quanto institucionalmente. A partir disso, uma série de políticas de viés eugenista e esterelizador tomaram forma violentando tanto fisicamente quanto epistemologicamente a população negra americana.

Ao longo de todo o texto Davis evoca uma série de líderes e ativistas feministas. Em um capítulo precioso, apresenta uma série de mulheres comunistas americanas que de, uma forma ou de outra, lidaram com a questão racial em suas militâncias.

Na contramão do que Harvey afirma, em “Mulheres, Raça e Classe” é possível entender de maneira fundamentada como as opressões fazem parte da totalidade da realidade. Não há como falar de capital sem mencionar de que maneira ele se construiu em cada país, que tipos de acumulação primitiva a classe dominante promoveu. Dessa maneira, não há como falar de “capital” sem dizer a qual “capitalismo” aquele pertence. Ainda que o nosso paradigma seja o do Capital x Trabalho, é necessário entender por quais mãos este trabalho é feito e de que forma este capital foi construído. O fatiamento da realidade, ou, para regatar a analaogia de Roedinger, segurar em uma mão “capital” e na outra “capitalismo” pode ter finalidades explicativas para cientistas sociais. No entanto, a realidade social se dá de maneira simultânea e desordenada, entrecruzada por diversos fatores.

No livro, a militante feminista negra e comunista Angela Davis descarta a possibilidade de encarar as questões de gênero e raça apenas como identitárias, descoladas da luta de classes.  Neste sentido, Angela Davis vai tecendo empiricamente uma análise que comprova – evocando líderes, ativistas, movimentos e associações – que não há como falar de capitalismo e, sobretudo, de capital, sem mencionar opressões estruturais como gênero, raça e sexualidade.  

Referências bibliográficas: 

DAVIS, A. Mulheres, Raça e Classe. São Paulo: Boitempo, 2016. 

HARVEY, D. Response to Alex Dubilet. Syndicate. April, 2017 (disponível em sindicatetheology.com)

ROEDINGER, D. Class, Race, and Marxism. New York: Verso, 2017.  

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