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Os precedentes nacionalistas da Revolução

*Por Gilberto Silva

Último baluarte do jugo colonial espanhol no Novo Mundo, Cuba, a “pequena notável” ilha caribenha, a poucas milhas do que viria a ser a maior potência imperialista do mundo contemporâneo, destaca-se como paradigma no que diz respeito ao estudo do “conceito de nacionalismo no Novo Mundo”, partindo do pressuposto de que, desde sua descoberta ainda no Século XV e sua conquista nos primeiros anos da centúria seguinte até sua inserção e alinhamento ao campo soviético em plena guerra fria, este pequeno pedaço do Caribe guarda, no interior de seu processo histórico, características que a tornaram ímpar no estudo sobre o continente. Sobretudo no campo da história política da época contemporânea.

O tema que aqui se pretende apresentar, refere-se ao processo de (re)construção do Nacionalismo Cubano na primeira metade do século XX. É importante salientar que tal processo de construção possui raízes no fecundo século XIX, no contexto das guerras independentistas e do papel do apóstolo da independência Jose Martí e do seu legado teórico acerca do nacionalismo anticolonial e posteriormente antiimperialista que
serviu como plataforma política das diversas tendências nacionalistas surgidas e inseridas na conturbada e efervescente vida política cubana na primeira metade do século XX.

Logo após sua independência, tutelada pelos Estados Unidos, emergiram em
Cuba as mais variadas vertentes políticas que se reivindicavam nacionalistas e, desta formação híbrida, ensejou e condicionou a construção da sociedade cubana. Refletiu-se também nas contradições resultantes de seu complicado processo de independência e de certa maneira expressando a oposição entre o projeto Martiano de República e o frustrante regime instalado a partir de 1902.

A partir da pseudo-independência em 1898 e a chancela da tutela imposta pelos EUA, caracterizada pelo que ficou conhecido por Emenda Platt e que estabeleceu o domínio dos yankees na ilha, a vida política desta pequena parte do Caribe torna-se um verdadeiro caldeirão efervescente de ideologias, projetos e aspirações de uma sociedade que não havia concluído seu processo de autonomia. O nacionalismo engendrado por Martí e que serviu de motor ideológico na luta dos Mambises pela libertação ante o império hispânico é (re)inventado e (re)construído através das diversas correntes políticas surgidas ao longo da primeira metade do séc. XX que reivindicavam o nacionalismo do apóstolo da independência. [1] 

Os Governos que se sucederam durante toda a metade do século XX, salvo raras exceções, tiveram como objetivo consolidar e assegurar os interesses imperialistas dos EUA na pseudo-república. Do governo de Estrada Palma (1902-1909), que deu início ao fenômeno conhecido como teoria dos ciclos – em que os partidos conservador e liberal se alternavam no poder – até o último governo Batista, Cuba foi palco de disputas políticas que estabeleceram terreno propício ao surgimento de diversos partidos
políticos, associações, e organizações que galvanizaram a política institucional da ilha. É justamente neste emaranhado de representações que se desenvolve um forte sentimento nacionalista que busca se afirmar, apropriando-se, de maneiras diversas e muito das vezes contraditórias, da herança política das guerras independentistas do século XIX e principalmente do legado teórico do grande Herói da independência, José
Martí.

Tanto conservadores e liberais, quanto a complexa esquerda, formada em suas origens pelo influente movimento anarquista na ilha no início do século XX, reivindicam, cada um a sua maneira , o nacionalismo oriundo do rebelde movimento independentista.[2] Segue então um movimento extremamente revolucionário e popular que põe fim ao governo Machado e inaugura um ciclo de experiências políticas eivadas de forte influência de movimentos de massa como o FEU (federação dos estudantes Universitários), CNOC (confederação Nacional Operária de Cuba) e o Partido Comunista de Cuba, que já vinham se institucionalizando no período anterior e se estabelecem a partir da queda da ditadura machadiana. Tal institucionalização nos remete a necessidade de uma análise sistemática das propostas que vão se articulando em um contexto com fortes tendências revolucionárias de cunho popular e democráticas em que o nacionalismo ocupa um papel de motor ideológico que, ao meu ver, carece de um aprofundamento que leve em conta a singularidade de sua construção e sua estreita ligação com o movimento que culminou com a queda do regime de Batista em 1959.

1 GOTT, Richard. Cuba: uma nova história. Rio de Janeiro, Jorge Zahar ED., 2006.
2 JÚNIOR, Odir Alonso. A esquerda cubana antes da revolução: anarquistas, comunistas e trotskistas. In:
COGGIOLA, Osvaldo (Org.). Revolução Cubana: história e problemas atuais. São Paulo: Xamã, 1998.

*Gilberto dos Santos Silva, Bacharel e Licenciado em História pela Universidade Federal Fluminense, Mestre em História social pela UERJ-FFP e professor da rede pública e privada de ensino.

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