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Direitos da população LGBTQI e os rumos da Revolução Cubana

*Por Gênesis de Oliveira Pereira

Em Cuba aprendi com um revolucionário da maior envergadura, chefe dos tanques de guerra cubanos na guerra da Síria na década de 70, que a revolução é permanente, nunca deve ser empregada no passado, a revolução é presente e futuro. A revolução é hoje e amanhã, ela está acontecendo agora.

Muitas revoluções acontecem em Cuba nesse momento que antecede as comemorações dos 60 anos de libertação do domínio imperialista na ilha, mas sem dúvida a mais expressiva está sendo protagonizada por homossexuais. Discutiu-se a proposta de alteração da Constituição tendo em vista o reconhecimento do casamento igualitário entre pessoas do mesmo sexo. A Constituição é dialética e está em constante processo revolucionário. A proposta foi protagonizada por Mariela Castro,diretora do Centro Nacional Cubano de Educação Sexual, filha de Raul Castro e Vilma Espín [1],ativista na luta pelos direitos ligados à homossexualidade, bissexualidade, travestilidade e transexualidade[2].

Eu e meu companheiro, um casal gay, caminhamos por Cuba, em Havana e algumas cidades menores, por todas elas boates gays, shows de drag queens, performances, cartazes em apoio ao casamento igualitário. Essa efervescência não está imune ao bloqueio econômico, mas nem ele impede a chegada de perucas e maquiagens para os shows que varam a noite.

Em nossa jornada fomos para Santa Clara, decidimos ficar ali uma noite, pois além de ver os restos mortais de Che e outros revolucionários nos interessava conhecer a cidade que tem sido um berço para a revolução gay em Cuba. Nos dirigimos a El Mejunje, um bar conhecido pelos shows de drag queen e centro disseminador da Revolução homoafetiva em Cuba. Nesse dia conhecemos Renné, dono do espaço, que ao descobrir que éramos brasileiros largou tudo que estava fazendo e nos levou para seu escritório. Estava eu, meu companheiro e Renné, membro do Partido Comunista Cubano, amigo de Mariela Castro, que queria saber tudo sobre a ascensão do neofascismo no Brasil e os rumos da população LGBTQI no governo Bolsonaro.

Ao final de nossa conversa, pediu para um de seus funcionários anotar em um papel seu número de Whatsapp, em seguida nos disse: “Lutem enquanto der para lutar no Brasil, o dia que não der mais comprem a passagem. Se tiver que sair em segredo não se preocupe, me escreva já em Cuba. Quando chegarem aqui tiramos a cidadania cubana de vocês, por Cuba, nenhum gay será queimado novamente no mundo.” Nós que vivemos num mundo de austeridade, encontramos humanidade em uma ilha. Em Trinidad conhecemos um jovem gay que nos disse que sempre planejou ir embora de Cuba para se casar, esse é seu sonho, sua Revolução. Com a mudança da Constituição ele já não vê motivos para sair da ilha. Em cada cidade cubana uma Revolução.  Estamos seguros que o caminho para humanidade é o socialismo tendo em vista o comunismo. Rosa Luxembrugo já dizia anos atrás, Socialismo ou Barbárie. O tempo presente reafirma suas prospecções.

A homofobia em Cuba existe, mas ela se manifesta de uma forma menos agressiva. É inimaginável agressões e assassinatos de gays, lésbicas, travestis, transexuais e não binários. Muita embora o preconceito e a moralidade cristã esteja solapando a ilha, a final estamos falando de uma ilha socialista num infinito mar do capital. Ontem recebemos com muita tristeza a notícia da proposta de retirada da alteração do conceito de família da Constituição. A perspectiva é que o casamento igualitário seja assegurado pela alteração do Estatuto da Família.Sem dúvida é uma grande vitória dos setores conservadores, que reafirma minha compreensão explicitada em outro artigo: o fim da propriedade privada não é automaticamente o fim das opressões. Um dos grandes desafios da Revolução é conter o avanço da onda religiosa [3],compreender o crescimento do protestantismo na ilha [4] e seus impactos para o socialismo. Estamos seguros, pela efervescência LGBTQI que vimos em Cuba, que não há como deter essa onda, essa é a Revolução de muitos, de milhares. Como se diz por lá, Revolução é mudar tudo o que deveria ter sido mudado. Portanto, a questão LGBTQI é uma Revolução porque ela precisa ser alterada.

O socialismo e o comunismo, parafraseando novamente Rosa Luxemburgo, deve construir um mundo onde sejamos socialmente iguaishumanamente diferentes e totalmente livres. Tenho a certeza que a Revolução será gay, lésbica, travesti, transexual, não binária ou não será.

Cuba Livre! Hasta la victoria siempre!


[1] Mulher, revolucionáriacombatente na Serra Maestra, feminista e presidenta fundadora da Federação deMulheres Cubanas em 1960.

[2] Mariela foi, também,protagonista no reconhecimento do direito ao processo de transexualização, quehoje é lei e assegurado gratuitamente no sistema de saúde cubano.

[3] Em muitas igrejas encontramoscartazes defendendo a concepção da família formada por homens e mulheres.

[4] Esse tema vem sendo debatido no Partido Comunista, motivado pelos rumos da política no Brasil.

*Assistente Social (UFF), Mestre em Serviço Social (UFRJ), Doutorando em Serviço Social (UERJ). Professor na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

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Um Comentário

  1. Grande Genesis: ” Tenho a certeza que a Revolução será gay, lésbica, travesti, transexual, não binária ou não será.” Cuba Livre! Hasta la victoria siempre
    É isso. Um bjo.

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